31 maio 2010

Pausa rimando dor com amor

Na sempre atual obra de Lewis Caroll, escrita no séc. XIX, Alice no País das Maravilhas, há uma cena em que a menina está perdida e pergunta ao gato do qual só aparecem o sorriso e o rabo : " Você pode me ajudar? Para onde vai essa estrada?" Ele responde com outra pergunta :"Para onde você quer ir?" Ela diz: "Eu não sei, estou perdida." Ao que ele  então responde: "Para quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve."

Fui forçada a me  afastar de minhas atividades profissionais, para realizar uma cirurgia que exige um tempo  de recuperação. Procedimento simples, para a medicina avançada de hoje; complicado para mim por ser muito invasivo, doloroso e  também quase paralisante. Quase, eu digo, porque se meu corpo se movimenta com dificuldade e na maior parte do tempo fica amarrado a uma cama, as ideias fervilham e escorrem pelos dedos chegando a esse teclado. "Mas o que isso tem a ver com o parágrafo inicial ?" , deve estar pensando você , caro leitor.

Confesso que ao saber da necessidade da cirurgia, além da preocupação natural com minha saúde, o meu afastamento dos alunos, também foi um fator que me deixou em conflito. Talvez porque muitos deles ainda estejam perdidos como Alice e eu me sinta na obrigação de ajudá-los a cair dentro de si mesmos, como na simbologia da história, para que aprendam a traçar sonhos a fim de que saibam escolher seus caminhos.

Na verdade esse rodeio todo foi para contar e também agradecer o tratamento que recebi no hospital em que fiquei quase uma semana internada. Não falo do tratamento  só com remédios, mas da atenção, cuidado, simpatia de toda a equipe. Médicos, enfermeiras, funcionárias da limpeza e cozinha e outros, sem exceção com dedicação extrema.

Dr. Egon(ginecologista e cirurgião) e Dr. Patrick(anestesista), meu dois anjos da guarda, que ao abrirem a porta do quarto, traziam em  suas asas sorrisos, conforto , esperança, ao fechá-la levavam nelas o medo, a dor, o cansaço. Mais que remédios( e foram muitos) , a terapia da atenção, do carinho, da amizade. Obrigada,  meus queridos doutores. Certamente se  caíssem  no mesmo buraco que Alice, não iriam se perder, porque  já encontraram seus caminhos. Não quero dizer "até a próxima",  porque não pretendo repetir outra dose como essa, mas tudo tem  seu lado bom, mesmo em experiências assim. Quero ser tão boa educadora quanto eles são bons médicos, tendo acima de tudo, mais que recompensa financeira, a imensa alegria de servir.